domingo, 9 de outubro de 2016

TORRE DE BABEL (BASTIDORES)

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Em Torre de Babel, Silvio de Abreu deu continuidade à linha que adotara em sua novela anterior, A Próxima Vítima (1995). O humor – sua principal marca registrada – saía do primeiro plano para servir como tempero de uma trama policial clássica, cheia de personagens ambíguos, gravitando em torno de um grande mistério a ser desvendado no final. A temática principal da novela era a violência em uma sociedade na qual ricos se fecham em condomínios e marginais são trancafiados em sistemas penitenciários inoperantes.

Através do personagem de Tony Ramos, Silvio de Abreu aproveitou para falar da dificuldade que os ex-presidiários encontram quando tentam retornar ao mercado de trabalho e de como a escassez de oportunidades e o preconceito social contribuem para que muitos voltem ao crime.

Torre de Babel estreou em 1998, cercada de expectativas. Tratava-se de uma superprodução, com um elenco estelar se arriscando em papéis pouco comuns em suas carreiras. Tony Ramos fugia do habitual papel de herói romântico para viver um ex-presidiário rancoroso e sombrio. O ator raspou os cabelos, emagreceu oito quilos e meio e apareceu com a barba por fazer em vários capítulos. Claudia Raia, um dos símbolos sexuais da televisão brasileira, interpretava uma empresária fria, sem sensualidade aparente, que se revelava uma assassina psicopata. Tarcísio Meira e Glória Menezes, o grande casal da televisão brasileira, viviam marido e mulher que não se amavam e acabavam se envolvendo com outras pessoas.

A novela causou polêmica por conta de alguns temas até então pouco explorados nas novelas de Silvio de Abreu. O autor tratou de drogas, infidelidade conjugal, homossexualidade e violência, provocando reações em parte da audiência e da Igreja.

Silvia Pfeifer e Christiane Torloni viveram o casal Leila e Rafaela.

A repercussão negativa levou a mudanças na estrutura da trama. Nesse sentido, a explosão do shopping teve, em termos de narrativa, uma função similar à do terremoto em Anastácia, a Mulher sem Destino (1967). O evento já estava previsto na sinopse, mas Silvio de Abreu decidiu utilizá-lo para eliminar personagens que não foram bem aceitos pelo público, como o dependente químico Guilherme (Marcello Antony) e a ex-modelo e empresária Leila (Silvia Pfeifer), casada com Rafaela (Christiane Torloni). Segundo o autor da trama, a morte da personagem Rafaela estava prevista desde a sinopse. Com a morte de sua companheira, Leila se aproximaria de Marta (Glória Menezes), e as duas se tornariam grandes amigas.

A partir dessa relação, Silvio de Abreu pretendia discutir o preconceito em relação à amizade de heterossexuais com homossexuais. No entanto, o autor revela que não conseguiu levar sua ideia adiante por conta do que foi divulgado pela imprensa logo nos capítulos iniciais da novela: que, com a morte de Rafaela, Leila teria um romance com Marta.

Segundo Silvio de Abreu, a repercussão dessa trama fictícia chocou o público, que não queria ver Glória Menezes e Silvia Pfeifer em cenas de intimidade. Por conta da repercussão da história, e temendo que isso prejudicasse sua novela como um todo, o autor decidiu que Leila também morreria na explosão do shopping.

Mesmo após as mudanças, houve rumores de que as personagens lésbicas poderiam voltar a trama. Fato este que não ocorreu.

Outro boato sobre o final da novela era que Rafaela teria saído ilesa da explosão e programado tudo junto com Ângela. As duas terminariam juntas numa ilha paradisíaca.

O público da época, se chocou ao ver numa novela, o amor vivido por um casal formado por duas mulheres: Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni); mas aceitou bem as traições e vida dupla de Sandrinha (Adriana Esteves), uma mulher sem educação, debochada, que passou a novela inteira traindo o marido, Alexandre, vivido por Marcos Palmeira.

Outro personagem "galinha", bem aceito foi Henrique (Edson Celulari), que traia a esposa Vilma (Isadora Ribeiro), com tudo quanto era mulher. Depois Henrique se envolveu com Celeste (Letícia Sabatella) e a vilã, Ângela (Claudia Raia).

Outro personagem que morreu com a explosão do shopping foi o violento Agenor (Juca de Oliveira). Na realidade, ele foi dado como morto, e afastou-se da trama durante um período, mas voltou à novela alguns capítulos depois.

Silvio de Abreu também investiu no romance e no humor. Além disso, mudou a personalidade do personagem José Clementino (Tony Ramos), que conseguiu se redimir e também destacou a grande vilã da história, que foi a Angela (Cláudia Raia). No fim das contas, o público aprovou as mudanças impostas pelo autor.

Em relação a explosão do shopping, na elaboração da sinopse da trama, o autor Silvio de Abreu chegou a pensar em explodir um avião. Mas se tornou inviável por que teria que desenvolver outro núcleo na história.

Sobre outras informações publicadas pela imprensa, o autor negou ter se inspirado na explosão do Osasco Plaza Shopping, em junho de 1996 e no desabamento do edifício Palace II, no carnaval de 1998, no Rio de Janeiro. Mas confirmou que se inspirou nas bombas detonadas no World Trade Center em 1993, com seis mortes e mais de mil feridos. Dois anos após, novamente no World Trade Center, aconteceria uma das maiores catástrofes terroristas da história mundial.

Até o final da trama, Silvio de Abreu conseguiu manter o suspense sobre o culpado pela explosão do Tropical Towers. Como já havia acontecido antes em A Próxima Vítima (1995), a gravação da cena em que a identidade do criminoso é revelada foi realizada no dia da exibição do último capítulo. Os atores envolvidos só receberam suas falas horas antes da gravação.

Silvio de Abreu conta que quis abordar temas relacionados ao problema da violência e também discutir duas opiniões: a que diz que a violência existe porque a condição social do indivíduo é injusta e a que argumenta que não adianta os ricos se protegerem atrás de grades, porque, mais cedo ou mais tarde, serão atingidos pelo problema. O tom forte de algumas cenas era uma tentativa de escapar à banalização da violência que o autor julgava ter tomado conta de muitos dos programas de televisão.

Na lanchonete de Edmundo Falcão (Victor Fasano) também trabalha a garçonete Bina Colombo (Claudia Jimenez), uma mulher espontânea e engraçada, mas ingênua, que alimenta o sonho de se tornar rica. Ela mora com a tia Sarita (Etty Fraser) em um apartamento pequeno, mas a vida das duas muda depois que, graças a um golpe do destino, a garçonete se torna dona de uma fortuna. Bina está sempre acompanhada da sua melhor amiga, a dócil cozinheira Luzineide (Eliane Costa), que também trabalha na lanchonete e a quem ela ofusca com sua personalidade exuberante, impedindo que a moça fale; é sempre censurada por um “Cala a boca, Luzineide!”.

No decorrer da novela, Bina Colombo se dividiu entre Edmundo Falcão, Gustinho e Boneca. Ela se casa com o dono da lanchonete, mas os quatro personagens terminam juntos, formando um quadrado amoroso.

Em 14 de setembro de 1998, o ator Danton Mello, que interpretava Adriano na novela e que, na época, era também apresentador do Globo Ecologia, sofreu um grave acidente de helicóptero durante uma gravação para esse programa. No acidente, Danton sofreu hemorragia e fraturou costelas, ficando afastado da trama por meses, voltando somente nos últimos capítulos.

Claudia Raia conta que chegou a ser hostilizada na rua por conta das maldades de sua personagem, Ângela. A atriz revela que procurou a ajuda de uma terapeuta para conhecer um pouco mais sobre o universo dos psicopatas.

Torre de Babel também trouxe surpresas inesperadas no visual de alguns atores. Marcos Palmeira alisou o cabelo para viver Alexandre. Já Adriana Esteves, cacheou o cabelo para viver Sandrinha.

Silvio de Abreu trouxe de volta o personagem Jamanta na novela Belíssima, em 2005. Luzineide (Eliane Costa) também reaparece no último capítulo da trama. Jamanta está no altar, prestes a se casar com Regina da Glória, personagem da atriz Lívia Falcão, quando Luzineide entra na Igreja com vários filhos a tiracolo e impede o casamento.

Outra personagem que voltou repaginada foi Shirley, primeiramente vivida por Karina Barum e, em Haja Coração (2016), vivida por Sabrina Petraglia.

Denise Saraceni foi a primeira mulher no cargo de diretora geral de uma novela do horário nobre da Globo, através de Torre de Babel.

Heloísa Fabriani foi a escultura responsável pelas obras de Bruno (Stênio Garcia). Ela foi descoberta por Cristina Médicis em um shopping do Rio de Janeiro. Inclusive, Stênio Garcia entrou na metade da novela, ainda no ar na minissérie Hilda Furacão, de Glória Perez.

Xuxa Meneguel e Fausto Silva fizeram participações especiais em Torre de Babel, através do personagem Johnny Percebe (Oscar Magrine).

Para conceber o Tropical Towers – localizado fora da cidade cenográfica de Torre de Babel –, os cenógrafos Mário Monteiro e Keller Veiga se inspiraram no trabalho do pintor holandês Pieter Brueghel, que, no século XVIII, retratou a Torre de Babel descrita na Bíblia. Todo o trabalho foi realizado sem a ajuda de efeitos de computação.

Feito basicamente de esquadrilhas metálicas e vidro, o Tropical Towers ocupava uma área de 1.200m2 e levou 41 dias para ser erguido, dos quais 20 foram dedicados à construção de fundações de verdade capazes de sustentar o peso da estrutura. Foram usados 4.600m de vigas metálicas pesando 20 toneladas. Cerca de 200 operários trabalharam na construção, realizada no terreno onde antes havia Greenville, cidade cenográfica de A Indomada (1997). Dois elevadores panorâmicos foram instalados na fachada, e escadas rolantes davam acesso aos três pavimentos do shopping, onde estavam instaladas as lojas e os escritórios da direção.

No centro da construção havia uma ampla área denominada foyer, onde foram realizadas as gravações. Era uma estrutura vazada de 23m de altura e 400m2 de área, com 800 janelas que mudavam de cor graças a um elaborado sistema de efeitos visuais. Dessa forma, a direção podia alterar a aparência da fachada do edifício –, iluminada por 6 mil lâmpadas – fazendo com que as cores variassem do vermelho ao verde e ao amarelo. Uma subestação de energia com capacidade para 64kw tornava possível a iluminação de toda a estrutura. Um domo feito de policarbonato em tom azul foi instalado no teto, filtrando a luz natural que entrava no ambiente. O efeito era o de uma grande torre voltada para o céu.

Na parte externa do shopping, uma avenida de 16m2 levava até a entrada do edifício. Esculturas gigantes feitas pelo artista plástico Maurício Bentes adornavam as portas de entrada: três esculturas de plástico industrial em forma de bolhas com líquidos dentro e iluminação própria. Em média, cada uma tinha cinco metros de diâmetro e pesava 1,5 tonelada.

Para o cenário externo, também foi desenvolvido um projeto paisagístico com jardins suspensos em vários níveis. Um lago de 120m2, iluminado por uma sofisticada estrutura com 100 lâmpadas especiais instaladas abaixo da superfície, foi criado ao lado da estrutura central, e conectado a ela através de quatro rampas de acesso aos mezaninos.

Para reproduzir o estacionamento de um shopping de verdade, os cenógrafos criaram uma abertura no chão na qual os carros entravam, dando a impressão de um estacionamento subterrâneo. Na verdade, o carro dava uma volta pela parte de trás do cenário e retornava pela saída do outro lado.

Para as cenas da explosão do Tropical Towers, foram importados mais de 200 mil dólares em equipamentos de efeitos especiais.

O cenógrafo Mário Monteiro construiu três maquetes idênticas ao shopping, mas com proporções diferentes: a maior era seis vezes menor do que o shopping original. A segunda era dez vezes menor, e a terceira, 20. A explosão durou cerca de seis minutos no ar.

Torre de Babel contava, ainda, com mais duas cidades cenográficas e 19 cenários internos, entre eles o cortiço onde moravam Sandrinha (Adriana Esteves) e Bina (Claudia Jimenez). O cenógrafo Keller Veiga relatou que o cenário do ferro-velho de Agenor (Juca de Oliveira) foi concebido para parecer “uma ilha dentro de um ferro-velho”. O quarto da personagem Shirley (Karina Barum), por exemplo, foi montado dentro de um trailer acoplado à sala.

A produção de arte dos cenários – a cargo de Cristina Médicis – levou em conta as características pessoais dos personagens. A casa de Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) tinha ambientes que se complementavam, numa metáfora do relacionamento entre as duas: com poucos obstáculos, poucas paredes, muito vidro,0020produzindo efeitos de transparência. O papel de parede foi criado a partir das pinturas do austríaco Egon Schiele. Já a casa dos Toledo, uma família cheia de conflitos, tinha muitas paredes, representando o isolamento dos personagens. A lanchonete de Edmundo Falcão (Victor Fasano) era colorida e cheia de detalhes modernos, contrastando com uma jukebox típica dos anos 1960.

A fachada da penitenciária do Carandiru e o presídio do Hipódromo, em São Paulo, foram usados nas gravações das cenas de Clementino (Tony Ramos) na cadeia. A cenografia e a produção de arte reconstituíram cela, corredores, enfermaria e pátio de uma prisão. A cena em que Clementino jura vingança ao ver a imagem de César Toledo (Tarcísio Meira) na televisão do refeitório da prisão foi gravada na Febem do Pacaembu.

Torre de Babel também teve cenas gravadas em Itaipava, no estado do Rio de Janeiro, e os interiores do Iguatemi Shopping, em São Paulo, foram usados para cenas que se passavam no Tropical Towers.

A trama estreou com 42 pontos, índice considerado baixo por dois motivos: primeiro por causa da meta, que era 45 pontos; e segundo porque a audiência das tramas anteriores sempre esteve superior à 45 pontos. Por várias semanas, a audiência oscilava na casa dos 40-45 pontos.

No capítulo 45, exibido em 15 de julho , a trama bateu recorde de audiência: foram registrados 50 pontos de média. Neste dia foram exibidas as sequências das cenas de explosão do shopping Tropical Towers. Depois das mudanças, a trama alcançou níveis altos de audiência, inclusive se cogitou esticá-la até fevereiro.

No último capítulo, a trama alcançou 61 pontos e picos de 66; neste capítulo foram exibidos os principais desfechos dos personagens e a revelação de quem explodiu o shopping. Teve uma média geral de 44 pontos.

Prêmios:
Prêmio Extra de Televisão

Melhor novela
Prêmio APCA

Melhor atriz - Adriana Esteves
Melhor ator - Tony Ramos
Melhor atriz coadjuvante - Cleyde Yáconis
Troféu Imprensa

Melhor novela
Melhor atriz - Adriana Esteves
Melhor ator - Tony Ramos
Melhores do Ano - Domingão do Faustão

Melhor atriz - Adriana Esteves
Melhor ator - Tony Ramos
Melhor atriz coadjuvante - Eliane Costa
Melhor ator coadjuvante - Cacá Carvalho

Torre de Babel foi exibida, entre outros países, na Argentina, na Bélgica, no Marrocos, no México, na Romênia e no Senegal.


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