sábado, 22 de janeiro de 2011

ESTÚPIDO CUPIDO (VAMOS RECORDAR)



Os famosos anos dourados, retornavam ainda em preto e branco, às 19h, na tela da Globo em pleno 1976. Foi através da novela “Estúpido Cupido”, uma historia que conquistou a todos naquele ano. A novela de Mário Prata, com direção de Regis Cardoso, estreou em exatos 25 de agosto de 1976, ficando no ar até 28 de fevereiro de 1977, num total de 160 capítulos.






Os atores Françoise Forton e Ricardo Blat, protagonizaram a novela que virou febre naquela época. Muitos foram os destaques dessa historia que e é lembrada com ternura, até hoje. “Estúpido Cupido” retratou com maestria os famosos bailes de formatura, as festinhas nas casas dos amigos, a moda e as artes daquela época, os costumes e hábitos de uma geração. O mais incrível era que a novela se passava no inicio dos anos de 1960, apenas 15 anos antes de sua produção, comprovando como a década de 1970 foi totalmente diferente da década anterior.



Moradora de Albuquerque, a normalista Maria Tereza (Françoise Forton) sonha em morar na capital e ser eleita Miss Brasil. Ela era apaixonada por João (Ricardo Blat), jovem idealista que pretendia seguir carreira jornalística e que sofria de ciúme da amada nas passarelas.


João (Ricardo Blat) Tinha 18 anos, naquele tempo. Aqui, a figura central da crônica. Ou seja, a figura jovem que teve um caso de amor lírico e maravilhoso com Maria Tereza (Fronçoise Forton) que um dia foi Miss Brasil. Aliás, neste ano. Ajudava o pai numa oficina e estava sempre guiando carros novos de fregueses. O que ele tinha mesmo era uma Lambreta. A garagem era ponto de encontro dos Personélitis Bois – nome da banda de rock formada pelo grupo de amigos Bad Boys e rebeldes sem cauda: Mederiquis (Ney Latorraca), Caniço (João Carlos Barroso) e Carneirinho (Tião D’Ávila).


Maria Tereza ( Françoise Forton) Era a mais bonita da cidade quando tinha 19 anos e foi eleita, sucessivamente: Miss Ribeirão Campestre, Miss Noroeste, Miss São Paulo e Miss Brasil. Tentou o Japão mas a única coisa que arrumou foi um "príncipe" japonês engraçadíssimo. No começo era a namorada do João, apesar de ser um ano mais velha que ele. Cada degrau que ela subia era uma briga com o João. Mas sempre voltavam. Faziam mil exigências um ao outro.


Curtia muito a Bossa Nova. Normalista, seu grande sonho era deixar a cidade e, por isso, sentia-se atraída em participar do concurso de miss, que pode levá-la a São Paulo, Rio e até aos Estados Unidos. Contra seus planos se colocava João, o namorado, sempre muito ciumento. Um ano mais novo do que ela, João acha que devem se casar e ficar em Albuquerque, o que provoca alguns conflitos em Maria Tereza, dividida entre o amor pelo rapaz e a vontade de procurar novos horizontes.


Olga (Maria Della Costa) - Aos 38 anos, mulher ainda jovem e bonita, era obrigada a manter uma vida solitária para evitar comentários na cidade que a desaprovava pelo fato de ser desquitada. Tinha três filhos, Maria Tereza (Françoise Forton), Ciça (Sônia di Paula) e Caniço (João Carlos Barroso). Sua única distração social era acompanhar as filhas aos bailes e festas. Quando a mais velha é convidada a participar do concurso de Miss Albuquerque, vê nisso a possibilidade de conhecer novos lugares e de uma vida menos vigiada. Olga Era uma mulher muito só. Diziam que o marido trabalhava numa fazenda do Mato Grosso e mandava dinheiro. Um dia receberam a notícia que ele tinha sido assassinado por uma questão trabalhista qualquer. Naquele tempo matava-se muita gente no Mato Grosso assim sem mais nem menos. Foi quando ela descobriu um excelente passatempo: ser mãe de Miss. Ficou outra mulher, ganhou vida. Antes, foi morar com ela uma sobrinha do Rio que só traria aborrecimentos, a Betina(Heloisa Milet). Um pouco mais velha que seus jovens filhos.


Ciça (Sônia di Paula) Era a irmã mais nova de Maria Tereza. O irmão do meio chamava-se Caniço (João Carlos Barroso). Ciça (Sonia de Paula) estudava no colégio de freiras, onde implicava e brigava com todas as colegas. Sempre desligada dos estudos, estava mais preocupada em conquistar a simpatia das freiras.


Caniço (João Carlos Barroso) era desajeitado, distraído, fazia parte do conjunto de rock Os Personélitis Bóis, onde era proibido de cantar por causa de sua desafinação. Estava apaixonado por Glorinha (Djenane Machado), filha do delegado de Albuquerque (Mauro Mendonça), mas não sabia como se confessar.


O amor maduro foi muito bem representado pelos personagens vividos por Maria Della Costa e Leonardo Villar. Os atores viveram um casal romântico maduro, contrastando assim com os demais parzinhos de jovens namorados da novela.


Guima (Leonardo Villar) Era um viúvo com uns 45 anos, acomodado em sua viuvez. Cristão, presidente do Clube da cidade, rotariano, autoritário dentro de suas ordens, seguidor das leis - cegamente. Seu grande sonho era fazer uma grande reforma no clube para projetar-se socialmente e tentar a prefeitura nas próximas eleições. Muito autoritário, era um austero seguidor das leis. Também era pai de João (Ricardo Blat) e Zé Maria (Ricardo Garcia).


Guimão (Osvaldo Louzada) era pai de Guima. Aposentado do Banco do Brasil, tinha uma permanente preocupação com a morte e acha que poderia gravar as vozes dos mortos. Em suas experiências, monta uma aparelhagem de escuta e gravação especial. Sua grande amiga e ouvinte atenciosa era Daquinha (Vick Militello), uma espécie de governanta da casa. Como sinal característico, tinha há vários anos uma coceira incurável na perna direita e, acostumado com o formigamento, batizou-o de Neném, chegando até a comemorar seu aniversário.


Zé Maria (Ricardo Garcia) era o caçula da família, é uma espécie de "rabicho" do irmão. Tarado por futebol, estava sempre ouvindo os jogos ao lado do avô, mas em conflito, pois Guimão era santista e Zé Maria era corinthiano. Aos 11 anos, sem poder freqüentar os bailes e festas, distraia-se aprendendo a dançar com o travesseiro, a quem chamava de Gracinha. Órfão de mãe desde pequeno, foi praticamente criado por Daquinha (Vick Militello).


Daquinha (Vick Militello) era empregada da casa de João (Ricardo Blat). A única mulher naquela casa. Sua distração era escrever carta para Correio Sentimental. Tinha um verdadeiro arquivo que guardava a sete chaves. Até que um dia começou a receber umas cartas de Ribeirão Campestre mesmo. De quem seria? Do Cabo Fidelis, pensaram muitos. Era dessas que são inteligentes-práticos, sem a mínima cultura, mas dizem algumas sabedorias de vez em quando. Ouvia Angela Maria - recebeu uma foto autografada e tudo - e a Maísa. Foi babá do Zémaria (Ricardo Garcia) desde que ele nasceu.


Drº Siqueira (Mauro Mendonça) Era delegado. Janista roxo. Dono da verdade. Intransigente, metido a besta, passava muita vaselina no cabelo. Foi apelidado pelos rapazes de Albuquerque de Tom Mix. Seu comportamento era um só, em casa ou na delegacia. Gostava de contar piadas, das quais ele era o único a achar graça. Dona Mariinha (Marilu Bueno) Era a esposa. A típica representante da sociedade de Ribeirão Campestre. Aquela que esperava para o jantar, tirava os sapatos e as meias, ia buscar a água, etc. O nome é Maria Antonieta Siqueira, mas foi simplificado para dar um tom mais charmoso a uma das dez mais elegantes de Albuquerque.


Apesar dos compromissos estéticos que a situação lhe impõe, Mariinha era totalmente dedicada ao marido, para quem se preparava com esmero. Toda a sua elegância era voltada para o momento em que o delegado chegava à casa, à noite, quando ela lhe servia o jantar e trazia os chinelos.


Glorinha (Djenane Machado) era a única filha Filha de Siqueira e Mariinha. Aos 18 anos era a menina mais engraçada da cidade, agindo sempre em dupla com Aninha, sua amiga inseparável. Escreve um diário mantido em segredo, para desespero de seus pais, que vivem fazendo perguntas.


Aninha (Heloísa Raso) era amiga inseparável de Glorinha (Djenane Machado). Elas estudavam no colégio de freiras de Albuquerque onde cursavam o primeiro ano. Ciça (Sônia Di Paula) também fazia parte do grupo dos jovens amigos.


Mederiquis (Ney Latorraca) era o líder dosPersonélitis Bóis, posição conquistada não por ser o mais forte ou mais inteligente, mas por ser o mais velho. Antonio Ney Medeiros estava há sete anos no curso científico, maneira que encontrou para não perder a mesada paterna. Um típico play-boy, fã de Elvis Presley e James Dean, lambretista, sempre de blusão de couro preto e chicletes na boca. Metido a cantor, arquitetava vários planos para agitar a cidade.


Mederiquis (Ney Latorraca), também era o terror das mulheres, e sempre se engraçava com a carioca Betina (Heloísa Millet), de costumes mais avançados do que os das meninas locais. Betina (Heloísa Milet) veio do Rio de Janeiro para morar na casa da sua tia, dona Olga (Maria Della Costa). Muito mais experiente e vivida, começou a ser mal olhada na cidade. Culminou quando ela dançou de rosto colado com o Mederiquis e foi assunto para fofocas e escândalos durante um mês. Chegava em Albuquerque para fazer uma pesquisa de sociologia e acabava provocando um verdadeiro caos na cidade com seus hábitos cariocas. Com 23 anos, era uma pessoa mais arejada do que a grande maioria da população. Fumava, usava maiô de duas peças e tomara-que-caia, dançava de rosto colado, o que acaba atraindo Mederiquis, líder da rapaziada local.


Além de Mederiquis, o grupo jovem da novela é formado também por Carneirinho (Tião D’Ávila) – braço direito de Mederiquis, sempre na garupa de sua lambreta, pronto a seguir suas ordens. Estava sempre na garupa da lambreta do líder pronto a seguir suas ordens.Totalmente sem personalidade, era um entrega-recados. Sua grande qualidade era ser um bom cantor, indispensável nas serenatas, mas estava sempre com sono.


Mederiques chega a viajar para o Rio de Janeiro e quando retorna a Albuquerque, chega cheio de ideias. Ele distribui biquines para as garotas da cidade e termina causando uma grande revolução na cidade. Não tinha outra assunto na cidade e as fofoqueiras Adelaide (Célia Biar) e Eulália (Cleber Macedo), não largava mais o telefone por causa da novidade.


Belchior Neto (Luiz Armando Queiroz) - Meio mendigo, meio desligado, passava dias e noites na praça. Aparentemente não apresentava qualquer desequilíbrio mental, afora o fato de, entre onze e meia e meio-dia, colocar no ar uma estação de rádio imaginária, com propagandas, anúncio de filmes em cartaz e o programa Telefone "Pedindo Bis". As pessoas que se aproximavam eram prontamente entrevistadas por Belchior. Apareceu sem ninguém saber de onde e isso intrigava muita gente, pois ele tinha fartos conhecimentos de matemática e literatura. Alguns pensavam em interná-lo, mas os rapazes, liderados por Mederiquis, o protegia. Belchior e a irmã Angélica (Elizabeth Savalla) se conheciam e ficavam atraídos um pelo outro. Com o apoio da religiosa, Belchior acabava resgatando seu passado: ele tinha sofrido um acidente de carro, no qual perdera toda família. E o juízo também, passando, então, a vagar sem rumo.


Cabo Fidelis(Tony Ferreira), braço direito do delegado (Mauro Mendonça). Burro, uma toupeira, alto e forte, era metido a xerife, buscando inspiração nos filmes de bang-bang. Além das funções normais, fazia ainda o serviço de guarda de trânsito e fiscal do jardim onde os rapazes se reuniam.


O cabo Fidelis era grande amigo de Miguel (Luís Orion) e sua paixão era a empregada Daquinha (Vick Militello).


Prefeito Aquino (Enio Santos) - Solteirão, era o prefeito da cidade que estava sempre em busca de uma chance para fazer um galanteio especial as moças em idade de casar. Com a chegada de Betina, mais velha do que as da cidade, entusiasmou-se logo e passou a cortejá-la.


Albuquerque também tinha um convento e uma escola dirigida por freiras onde estudavam as meninas da cidade. O colégio tinha a autoritária Madre Encarnacion (Ida Gomes) como diretora. Ela tinha mias de oitenta anos e era asmática, surda e também tinha urticaria. Irmã Consuele (Suely Franco) era freira e ensinava ciências. Arrancava as paginas do livro que tivesse o corpo humano para as meninas não caírem em tentação. Achava-se a maior entendida em cinema da cidade e ficava ligada nas mensagens dos filmes.


Irmã Angélica (Elizabeth Savalla) era a mais jovem de todas. Sempre quis mudar a estrutura rígida da disciplina, mas não tinha voz ativa. Era apenas uma professora. Quando a coisa ficava preta as meninas iam falar com ela.


Logo em seu primeiro ano no colégio, teve várias idéias de incentivar as atividades artísticas entre as alunas, com a criação de um grupo de teatro amador, mas não encontrou apoio da diretoria, que a aconselhou a se limitar às suas aulas de Português. Com o passar do tempo, Angélica e Belchior sentem uma forte atração e se apaixonam. O homem cuja história era desconheicda, dormia na praça e, todos os dias, fazia narrações num microfone imaginário, para uma rádio inexistente.


Padre Batista (Antonio Patiño) era o Diretor do colégio de padres, chamado pelos alunos de Batistão. Tipo conservador, procurava manter o mesmo tipo de ensino do passado. Além das aulas de Biologia, se ocupava em ouvir as confissões de alunos e padres. Já o Padre Almerindo (Emiliano Queiroz) era Professor de Latim e Espanhol e também o responsável pela disciplina do colégio, era conhecido por suas frases de efeito. Apesar de toda a sua rigidez e função, os alunos estavam sempre lhe pregando peças e colando em suas provas.


Adelaide sabia de todas as fofocas, enquanto o padre Almerindo cuidava dos alunos da escola.


Acioly (Nuno Leal Maia) era um Geólogo da Petrobras que chegava em Albuquerque para iniciar uma pesquisa sobre a existência de petróleo nos arredores da cidade.


Acioly era um homem misterioso ao mesmo tempo que elegante e maduro. Sentia-se atraído por Maria Tereza e passava a freqüentar sua casa, na tentativa de conquistar a jovem.


No final, Acioli é preso pelo cabo Fidelis depois de roubar o dinheiro da prefeitura.


João chega a sonhar que puxa uma charrete onde encontra-se sua amada Maria Teresa com o pilantra Acioli, vestidos de noivos.


Caniço (João Carlos Barroso) e Glorinha (Djenane Machado) foram os primeiros a se casar. O mais surpreende foi que, até assumir o namoro, ele vivia se esquivando das investida de Glorinha, que há muito queria um compromisso mais sério. Na verdade, Caniço sempre gostou de Glorinha e desejava o noivado tanto quanto ela. Só que morria de medo de enfrentar o pai da moça, que não o via com bons olhos. Quando ele ganhou na loteria, ficou mais seguro e enfrentou o pai de sua amada. Afinal, depois que ficou rico, passou a ser considerado um bom partido.


Em seu ultimo capitulo, a novela faz uma passagem de tempo, de dezesseis anos, chegando no ano de 1977. Maria Teresa e João estão casados. Ele é um escritor famoso que está fazendo uma novela para televisão. Ela, escreve artigos para jornais e revistas. Com João e Maria Teresa, o autor Mário Prata se inspirou em sua vida, com sua esposa na época.

Glorinha e Caniço aparecem desquitados numa cena onde via visitar o filho. Caniço é um médico formado. Guima e Olga, casados, curtem a tranquilidade da velhice. Carneirinho também aparece como médico formado e Ciça estudando no Rio.


Mederiques se transforma num ator famoso, enquanto Belina vive solteira no Rio de Janeiro. Acioli compre pena por causa do dinheiro que roubou.


Belchior não se casa com irmã Angélica, que continua vivendo no convento. Ele apresenta uma filha chamada Maria Angélica e fica no ar se a menina foi fruto do amor dele com a freira.


Finalmente, na ultima cena, aparece todos assistindo televisão, onde a Globo anuncia sua próxima novela: “Locomotivas”.



"Tive três dias para fazer uma sinopse da novela. Três dias pra fazer uma coisa que eu nunca tinha feito na minha vida. Mas, tudo bem, porque o tema já estava mais ou menos na minha cabeça, essa vontade de escrever sobre o início da década de 60. Depois disso, eu passei vendo novelas durante um mês. Sentei em frente da televisão e via tudo. E conversei muito com autores, com o Gilberto Braga, o Bráulio Pedroso e, principalmente com a Janete Clair e o Dias Gomes. Eles me deram dados técnicos, os macetes. Fui indo. Mas, por exemplo, eu tive que refazer umas cinco vezes os primeiros capítulos até achar uma técnica minha, um método meu. Porque novela, como é um trabalho muito extenso, você vai descobrindo aos poucos. Estou descobrindo ainda e ainda vou descobrir durante muito tempo. Cada dia é uma possibilidade nova, você pode fazer uma coisa além. E isso você só vai perceber quando começam a gravar, porque antes, você escreve meio no escuro, sem saber como vai ficar. Por um outro lado, a produção nunca colocou barreiras para o que eu peço. O que eu estou criando, eles tornam possível. Isso dá uma tranqüilidade técnica."

(Comentário de Mário Prata, na época da novela)



O ANO é 1961 e marca o início da mudança violenta que ocorreu no mundo na década de 60. A cidade é Albuquerque, no interior de S. Paulo. Os jovens estão terminando a terceira série do colegial. É o ano de opção: ir para a capital, esperar marido ou trabalhar na fazenda de café do pai? É esse clima que Mario Prata mostrou em sua trama. “Estúpido Cupido” foi o nome escolhido em substituição a "Parece que Foi Ontem", considerado muito vago. Na época, a novela foi aguardada com muito interesse, como uma revelação no sentido do compromisso com a realidade.
“Estúpido Cupido” veio com o propósito de mostrar duas leituras.Apesar de leve e apresentada de forma quase ingênua por causa do horário, ela mostrou problemas sérios.

"Quem ficar com a leitura superficial só vai perceber as situações engraçadas absurdas. Mas por baixo delas há a verdade, as coisas sérias."

(Mário Prata)



A cidade fictícia de Albuquerque é no interior de São Paulo e ali chegaram os ecos da mudança que viria afetar o comportamento da juventude em todo o mundo. Poderia ser qualquer cidade do interior onde a televisão não tivesse força suficiente para exercer influências, ainda a cargo de um cinema que tinha como astros Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka. A música como símbolo máximo dessas transformações. O rock, o twist, o cha-cha-cha. Ritmo forte em palavras até certo ponto ingênuas, ao mesmo tempo em que a roupa passava a ser o vermelho escandaloso das camisas, o jeans, o topete farto substituindo o cabelo bem comportado. O homem alcançava o espaço. Novos tempos. Novos costumes.


São várias histórias paralelas e cruzadas em torno desse fato principal - disse Mario Prata, na época da produção da novela. A novela é em cima de uma época que sempre me fascinou muito, que é o início da década de 60, quando as coisas começaram a pintar. Desde a pílula anticoncepcional até o homem chegar ao espaço. Houve uma guinada na Igreja , com João XXIII, uma mudança nos costumes.


Foi quando começou o "sonho". Muita gente, hoje, fala que o sonho acabou, mas não sabe como começou. Então, posso dizer que essa foi a abertura do sonho. Minha geração hoje está toda no sofá do analista. Estúpido Cupido, então, tem duas leituras. Numa primeira, a novela pode parecer uma coisa até mesmo "água-com-açúcar".


Aqueles namorinhos de adolescentes do interior, aquela coisa de turma do Bolinha e Luluzinha - tem até uns personagens com nomes assim, Glorinha, Aninha, Seu Miguel. E tem uma segunda leitura, que está por baixo disso. Não me interessava fazer uma novela água-com-açúcar, como não me interessava fazer um tratado social. Então, eu mesclei as duas coisas. Para gregos e troianos.



Como nos anos 60, Estúpido Cupido trouxe todos os conflitos de uma juventude que despertava para novos valores. Um tema que nunca foi abordado numa novela das 19 horas na época. Muita gente adivinhava uma nova proposta no tema, algo que revolucionasse o horário. Mario Prata simplificou. Foi uma novela, com todos os ganchos e suspenses de uma novela.



"Essa novela partiu de uma frase de Tólstoi -"Pinte a sua aldeia e serás universal"- e é uma verdade. No começo, mostrei à minha irmã e ela achou que estava muito Lins , uma coisa que só interessaria a quem viveu aquilo, mais ninguém. Aí, eu passei a mostrar pra outras pessoas que nunca souberam de Lins e elas achavam que era igualzinho à cidade delas. Então, é realmente uma coisa universal, embora tenha muito de Lins. Eu só posso falar que vi, aprendi, vivi, mas isso interessa na medida em que tenha significado amplo. Inclusive, a novela tem um aspecto assim...terapêutico.


A minha geração sonhava muito, eu já disse, e hoje está no sofá do analista. Mas, entre fazer análise e escrever uma novela, eu acho mais gratificante escrever uma novela, porque são 30 personagens e cada um é um pedacinho da minha cabeça. Você começa a trabalhar com esse material e começa a se estudar. Embora não tenha, na novela, nenhum personagem que tenha sido especificamente eu. Como não tem nenhuma família que tenha sido a minha, ou uma cidade que tenha sido Lins. É uma época."

Mário Prata



Ney Latorraca caiu no gosto popular com o seu Mederiquis, personalizando o "rebelde sem causa" dos anos 60.


"Meu personagem se chamava Antônio Ney Medeiros e o apelido era Mederiquis. Quando vi as chamadas no ar, não gostei do visual - era um personagem muito maquiado - e resolvi sair da novela. Guta (diretora de elenco da Globo) foi lá em casa e me impediu: "Que bobagem é essa? Você vai voltar, fazer o trabalho e, se não está satisfeito com o resultado, invente outra maneira de fazer o papel. Aí mudei tudo. Fiz o Mederiquis sem a peruca, sem a maquiagem, com calças pretas superapertadas, botas bem grandes. (...) E Mederiquis acabou virando um grande sucesso dentro da novela". Ney Latorraca em seu livro “Muito Além do Script”.



A produção da novela reconstituiu com fidelidade o concurso Miss Brasil de 1961, do qual a personagem Maria Tereza participa na trama. As cenas do evento foram gravadas no Maracanãzinho, com um público de dez mil pessoas e os apresentadores do concurso real, Hilton Gomes e Marly Bueno.

- O elenco não sabia o resultado do concurso quando foi gravar a cena, nem mesmo Françoise Forton. Em seu livro O princípio era o som, Régis Cardoso conta que armou um truque para obter da protagonista uma reação bastante realista. Antes de começar a gravação das cinco finalistas do Miss Brasil, ele foi pessoalmente ao ouvido da atriz e disse que ela tiraria o segundo lugar, o que não era verdade. O diretor deixou uma câmera focada em Françoise, quando Hilton Gomes anunciou o segundo lugar para outra concorrente, registrando a reação surpresa e aflita da protagonista. Naquele momento, Fançoise entendeu que só poderia ser a primeira colocada. “Obtive uma reação realista ao extremo, até lágrimas de emoção ela deixou cair”, conta Régis Cardoso.



Estúpido Cúpido foi a estréia de Françoise Forton e de Elizabeth Savalla no horário das 19 horas. Antes, Françoise já tinha feito Fogo sobre Terra(20h)e O Grito(22h). Já Elizabeth havia trabalhado em Gabriela(22h)e também em O Grito.



Célia Biar e Kleber Macedo estiveram impagáveis como uma dupla de fofoqueiras de língua afiada que passava o dia trocando telefonemas e falando da vida dos outros.


O vídeo era dividido em dois e o público se divertia com as caretas daquela que contava a fofoca e da outra que ouvia a novidade. O bordão da dupla se tornou popular na época: "Fala danadinha, fala!".



E o que as pessoas, em pleno 1976, achavam da década de 1960, onde se passava a novela? Até então, uma época não muito distante. O concurso de Miss Brasil, explorado na novela, chegou a ser comparado meio ultrapassado em 1976 por algumas pessoas. Mais a maioria adorava as roupas de época, com homens usando gravata fina e mulheres usando saia rodada, além da bebida cuba libre e as musicas de Celi Campelo que voltava a fazer muito sucesso. As brigas físicas entre os jovens dos anos de 1960 eram motivo de surpresa para os jovens paz e amor da década de 1970.


Os modismos dos anos 60, literalmente voltaram com toda força entre os anos de 1976 e 1977, através da novela. A história empolgante, contava uma fase marcante dos anos dourados, trazendo sucessos musicais que viraram mais uma vez, a cabeça do publico que se entusiasmava com ritmos como o twist, a moda dos anos 60, entre outros modismos. Pode-se dizer que Estúpido Cupido era uma verdadeira festa e que foi uma das poucas novelas que retratou os bailes e costumes da década de 60 com fidelidade.


O cantor Elvis Plesley era quase que venerado pelos personagens jovens da novela e a canção "Don't Be Cruel"(uma ótima balada dançante) também fez parte da trilha internacional da novela. A moda de época também não deixou a desejar no figurino da novela e trouxe muita inspiração para os saudosistas da brilhantina e do vestido com saia rodada.


Cely Campello voltou às paradas com Estúpido cupido, música de abertura da novela, escolhida por ser um dos símbolos da juventude no início dos anos de 1960. No embalo da novela, a cantora relançou ainda outros hits, como Banho de lua, que também fez parte da trilha. O país voltou a dançar antigos sucessos, e os concursos de twist se multiplicaram em festas e colégios. Outra cena inesquecível foi a retumbante chegada de Cely Campello à cidade de Albuquerque, numa participação especial da cantora na trama.


A novela foi reprisada a partir de maio de 1979, às 14h. Em 1995 a emissora TVN do Chile produziu o remake de Estupido Cupido. A história se passa na pequena cidade de San Andrés. Estúpido Cupido foi a última novela da Globo produzida em preto-e-branco. O seu último capítulo foi gravado a cores e mostrou o paradeiro dos personagens em 1977.


A trilha sonora nacional de “Estúpido Cupido” vendeu mais de um milhão de cópias. Um record na época, consolidando assim, a vendagem de temas de novelas, iniciada a partir de 1971. O publico vibrou com as trilhas sonoras, que trazia sucessos como “Banho de lua e Estúpido cupido” de Celly Campelo, Meu mundo caiu de Maysa, Diana de Carlos Gonzaga, Broto legal de Sérgio Murillo, Biquini de bolinha amarelinho de Ronnie Cord, entre muitos outros hits dos anos 60. A trilha internacional também foi excelente, a melhor trilha sonora internacional de uma novela dos anos 60, já produzida. Niel Sedaka, Ray Charles, Elves Plesley, Paul Anka e muitos outros, formaram uma coletânea de muito sucesso.

Trilha Sonora Nacional

01. BANHO DE LUA - Celly Campello (tema de Glorinha)
02. QUEM É? - Osmar Navarro (tema de Belchior)
03. DIANA - Carlos Gonzaga
04. MEU MUNDO CAIU - Maysa (tema de Guima e Olga)
05. BROTO LEGAL - Sérgio Murilo (tema de Mederiquis, Caniço e Carneirinho)
06. ALGUÉM É BOBO DE ALGUÉM - Wilson Miranda
07. POR UMA NOITE - Stradivarius (tema de Irmã Angélica)
08. RITMO DA CHUVA - Demétrius (tema de Guima e Olga)
09. BOOGIE DO BEBÊ - Tony Campello (tema de Zé Maria)
10. SERENO - Paulo Molin (tema de Belchior)
11. NEURASTÊNICO - Betinho e Seu Conjunto (tema de Guimão)
12. BIQUINI AMARELO - Ronnie Cord (tema de Aninha)
13. TETÊ - Sílvia Telles (tema de Tetê)
14. BATA BABY - Wilson Miranda
15. ELA É CARIOCA - Os Cariocas (tema de Betina)
16. ESTÚPIDO CUPIDO - Celly Campello (tema de abertura)


Trilha Sonora Internacional

01. BREAKING UP IS HARD TO DO - Neil Sedaka (tema de Mederiquis)
02. LOVE ME FOREVER - The Playing's (tema de Daquinha e Cabo Félix)
03. BE BOP A LULA - Gene Vincent (tema de Caniço)
04. TUTTI FRUTTI - Little Richard
05. RUBY - Ray Charles (tema de Guima e Olga)
06. TWILIGHT TIME - The Platters
07. AMERICA - Trini Lopez
08. THE TWIST - Chubby Checker
09. SECRETELY - Jimmy Rodgers
10. TEARS ON MY PILLOW - Little Anthony & The Imperials (tema de Ciça)
11. MISTY - Johnny Mathis (tema de Mederiquis e Betina)
12. APRIL LOVE - Pat Boone
13. MULTIPLICATION - Bob Darin
14. DON'T BE CRUEL - Elvis Presley
15. PETIT FLEUR - Bob Crosby (tema de Guima e Olga)
16. THE GREEN LEAVES OF SUMMER - The Brothers Four (tema de Belchior)
17. PUPPY LOVE - Paul Anka (tema de Glorinha)
18. AL DI LÁ - Emilio Pericoli
19. EVERYBODY LOVES SOMEBODY - Dean Martin
20. BYE BYE LOVE - The Everly Brothers


A divertida e dançante abertura, ao som de “estúpido cupido” com Celly Campello, serviu como abre alas para o telespectador sentar-se no sofá da sala e esperar empolgado e ansioso a mais um capítulo. Ainda em preto e branco, a abertura era uma animação com fotos de vários momentos dos personagens da novela e celebridades da época.





Novela de Mário Prata
Direção de Regis Cardoso

ELENCO
NEY LATORRACA - Mederiquis (Antônio Ney Medeiros)
FRANÇOISE FORTON - Tetê (Maria Teresa)
LEONARDO VILLAR - Guima (Alcides Guimarães Filho)
MARIA DELLA COSTA - Olga
RICARDO BLAT - João
JOÃO CARLOS BARROSO - Caniço (Joel Otávio)
DJENANE MACHADO - Glorinha
LUIZ ARMANDO QUEIRÓZ - Belchior
ELIZABETH SAVALA - Irmã Angélica
NUNO LEAL MAIA - Acioli
MAURO MENDONÇA - Dr. Siqueira (Tom Mix)
MARILU BUENO - Mariinha (Maria Antonieta)
TIÃO D'AVILA - Carneirinho
HELOÍSA RASO - Aninha
HELOÍSA MILET - Betina
SÔNIA DE PAULA - Ciça
ÊNIO SANTOS - Prefeito Aquino
OSWALDO LOUZADA - Guimão
CÉLIA BIAR - Adelaide (Danadinha)
KLEBER MACEDO - Eulália (Papudinha)
SUELY FRANCO - Irmã Consuêlo
IDA GOMES - Madre Superiora Encarnación
EMILIANO QUEIRÓZ - Padre Almerindo
ANTÔNIO PATIÑO - Padre Batista (Batistão)
CARLOS KROEBER - Frei Damasceno
VICK MILITELLO - Daquinha (Joana D´Arc da Silva)
TONY FERREIRA - Cabo Fidélis
LUÍS ORIONI - Miguel
ZANONI FERRITE - Pepê
RICARDO GARCIA - Zé Maria
CLÁUDIO MOTTA - Gordon
CLÁUDIO FONTES - Godinho
SANDRO POLÔNIO- Comendador Giovanni Fanfani
HENRIQUETA BRIEBA - mãe de Olga


Fontes:
ARQUIVO MUNDO NOVELAS
Memória Globo
Wikipédia

2 comentários:

como faço disse...

alguem pode esclarecer por que não é apresentado na Globo em reprises.

Mundo Novelas disse...

Dificilmente "Estúpido Cupido" seria reprisada na sessão "Vale a pena ver de novo". Um dos fatores agravantes é o fato de ser muito antiga e, principalmente, ainda em "preto e branco".

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